Publicado em: 07/11/2025.
Calagem: o ponto de partida para solos produtivos. Entenda como corrigir a acidez, otimizar o uso de fertilizantes e elevar o rendimento das culturas.
Você sabia que cerca de 70% dos solos cultiváveis do Brasil apresentam algum grau de acidez?
Essa característica natural, aliada ao manejo agrícola intensivo, é um dos principais motivos pela baixa eficiência no uso de fertilizantes e pela queda de produtividade em diversas culturas.
De acordo com Cantarella et al. (2022), em pelo menos metade dessa área, a acidez reduzia 50% da produtividade das culturas, principalmente em pequenas propriedades do Cerrado.
A calagem é o primeiro passo de qualquer programa de manejo da fertilidade do solo. Ela cria as condições químicas ideais para o desenvolvimento das plantas e para o melhor aproveitamento dos nutrientes.
O que é a calagem?
A calagem consiste na aplicação de corretivos de acidez do solo, como o calcário agrícola (carbonato de cálcio e magnésio) ou outros materiais alcalinos, com o objetivo principal de neutralizar o excesso de acidez — representado pelos íons hidrogênio (H⁺) e alumínio (Al³⁺) — e elevar a saturação por bases (Ca²⁺, Mg²⁺ e K⁺).
Em termos práticos, o processo busca ajustar o pH do solo para faixas que otimizem o crescimento das plantas, entre 5,5 e 6,5, variando conforme a exigência da cultura.
A reação do corretivo no solo pode ser representada simplificadamente como:
CaCO₃ + 2H⁺ → Ca²⁺ + CO₂ + H₂O
Isso quer dizer que o carbonato de cálcio (CaCO₃) reage com os íons H⁺ (responsáveis pela acidez), neutralizando-os e liberando cálcio para a solução do solo.
Para que serve a calagem?
A calagem tem múltiplas funções, indo além da simples correção da acidez:
- Neutralização do alumínio tóxico (Al³⁺): em solos ácidos, o alumínio solúvel é altamente tóxico para as raízes, e prejudica a absorção de água e nutrientes. A calagem precipita o Al³⁺ na forma de compostos insolúveis (Al(OH)₃), e elimina a toxicidade.
- Fornecimento de cálcio (Ca) e magnésio (Mg): além de corrigir o pH, o calcário é uma fonte importante desses dois macronutrientes, fundamentais para o crescimento radicular, para a estrutura da parede celular e para a fotossíntese.
- Melhoria na disponibilidade de nutrientes: o aumento do pH promove a disponibilidade de nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K), enxofre (S), o que melhora a eficiência dos fertilizantes aplicados.
- Estímulo à atividade biológica: solos muito ácidos (<4,4) inibem a ação de microrganismos benéficos, como os responsáveis pela mineralização da matéria orgânica e pela fixação biológica de nitrogênio. Com o pH corrigido, a vida microbiana se intensifica, o que torna o solo mais fértil.
- Melhoria da estrutura e da agregação do solo: o cálcio favorece a floculação das partículas de argila, o que melhora a aeração, infiltração e retenção de água, o que facilita o desenvolvimento radicular.

Imagem: disponibilidade dos nutrientes em função do pH do solo. Fonte: Malavolta (1979).
Como avaliar a necessidade de calagem?
A recomendação de calagem é feita com base na análise química do solo.
O método mais utilizado no Brasil é pelo teor de alumínio e acidez potencial (H+Al): indicado para solos com alta acidez, esse método visa reduzir o Al³⁺ tóxico e elevar a saturação por bases (V%) até um valor adequado para a cultura.
Fórmula simplificada:
NC (t/ha) = (CTC x (V₂ – V₁)) / (100 x PRNT)
Onde:
- CTC: capacidade de troca catiônica a pH 7,0
- V₁: saturação atual por bases
- V₂: saturação desejada (geralmente 60 a 70%)
PRNT: poder relativo de neutralização total do corretivo
Tipos de corretivos de acidez
Os principais materiais utilizados na calagem são:
- Calcário dolomítico: contém carbonatos de cálcio e magnésio (CaCO₃ + MgCO₃). É indicado quando o solo apresenta teores baixos de Mg.
- Calcário calcítico: contém CaCO₃, recomendado quando o solo já possui níveis adequados de Mg.
- Cal virgem (CaO) e cal hidratada (Ca(OH)₂): têm reação mais rápida, porém exigem maior cuidado no manuseio e incorporação, além de custo mais elevado.
- Outros corretivos alternativos: escórias de siderurgia, cinzas agrícolas e resíduos industriais alcalinos, desde que tenham comprovação agronômica e sejam isentos de metais pesados.
Forma e época de aplicação
A calagem deve ser realizada antes da semeadura ou plantio, com tempo suficiente para que o corretivo reaja no solo, cerca de 60 a 90 dias antes do cultivo.
A incorporação deve alcançar a camada arável (0–20 cm), especialmente em áreas de preparo convencional.
Em sistemas conservacionistas, como o plantio direto, a calagem superficial também tem mostrado bons resultados a longo prazo.

Imagem: aplicação de calcário. Fonte: Sensix.
Conclusão
A calagem é a base do manejo da fertilidade do solo. Ignorá-la é comprometer o potencial produtivo da lavoura e aumentar os custos de produção.
Mais do que “jogar calcário”, é preciso entender o solo, calcular corretamente a dose e aplicar de forma eficiente. O retorno econômico e agronômico é certo.
O principal problema do Brasil é a baixa eficiência na aplicação da calagem.
Quando realizada de forma correta, desde a amostragem do solo, cálculo e a aplicação, é possível atingir os valores desejados de saturação por bases e o pH ideal para a cultura.
Gostou do conteúdo?
Quer se aprofundar em temas como manejo de solo, fertilidade e nutrição de plantas? Conheça os cursos de especialização da ESALQ/USP, promovidos pelo Programa SolloAgro, e atualize-se com os melhores profissionais do mercado.
*Texto redigido pela equipe SolloAgro.





0 comentários