O papel do solo na regulação do climática

Descubra como o solo atua na redução das mudanças climáticas, regulação de carbono, água e temperatura. 

Você sabia que o solo armazena mais carbono do que toda a atmosfera terrestre e toda a vegetação do planeta juntas? 

Estima-se que os solos contenham entre 1.500 e 2.400 Pg de carbono orgânico, mais que o dobro do presente na atmosfera (IPCC, 2021). 

No Brasil, com aproximadamente 850 milhões de hectares de solos tropicais, essa responsabilidade assume dimensão ainda mais estratégica.

Embora o debate climático costume se concentrar nas matrizes energéticas e no desmatamento, o solo permanece como um componente silencioso e, muitas vezes, subestimado. 

Conforme demonstrado por Lal (2004a), o manejo adequado dos solos agrícolas tem potencial para sequestrar entre 0,9 e 1,85 Pg de carbono por ano no mundo, volume suficiente para compensar parcela relevante das emissões fósseis anuais. Quando degradado, porém, esse mesmo solo deixa de atuar como sumidouro e passa a funcionar como fonte líquida de gases de efeito estufa, o que intensifica as alterações climáticas que a agricultura já enfrenta no campo.

Ficou interessado? Continue a leitura!

O solo como reservatório de carbono

O ciclo do carbono terrestre tem no solo seu principal reservatório continental. 

Imagem: Estoques globais de carbono no sistema solo-planta-atmosfera. Fonte: Abrefen (2026)

Durante a fotossíntese, as plantas fixam CO₂ atmosférico e transferem parte desse carbono ao solo por meio de exsudatos radiculares, necromassa e resíduos vegetais. 

Microrganismos decompositores processam essa matéria orgânica e convertem frações lábeis em compostos húmicos estáveis, que compõem o carbono orgânico do solo (COS). 

Lehmann e Kleber (2015), argumentam que a matéria orgânica do solo não se constitui de compostos estáveis e quimicamente únicos, como antes se supunha, mas de um contínuo de compostos orgânicos em progressiva decomposição. 

O problema surge quando o manejo agropecuário rompe esse equilíbrio. 

O preparo intensivo do solo, com aração profunda, expõe agregados antes protegidos à oxidação microbiana acelerada e libera carbono na forma de CO₂. 

De acordo com o Prof. Cerri (2007), a conversão de ecossistemas nativos tropicais em lavouras convencionais provoca reduções nos estoques de carbono orgânico do solo, com consequências sobre a fertilidade e sobre as emissões de gases de efeito estufa no Brasil.

Em contrapartida, Lal (2004b), demonstrou que a adoção de práticas conservacionistas, como plantio direto com cobertura de resíduos, culturas de cobertura e manejo integrado de nutrientes, pode sequestrar de 50 a 1.000 kg de carbono por hectare por ano. 

Sistemas conservacionistas podem reverter o processo de degradação e contribuir de forma para o sequestro de carbono em escala regional.

Regulação hídrica: o solo como esponja climática

A influência do solo sobre o clima não se restringe ao ciclo do carbono. 

O solo é importante na regulação do ciclo hidrológico, pois funciona como interface entre a precipitação atmosférica e os fluxos de água superficial e subterrânea. 

Imagem: Ciclo hidrológico. Fonte: Ministério de Minas e Energia (2025)

De acordo com Rockström et al. (2009), os limites planetários seguros para a humanidade, a degradação dos solos agrícolas estão entre os principais fatores responsáveis pela desestabilização dos ciclos hídricos regionais, com impactos sobre a frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos.

Um solo estruturalmente saudável, com altos teores de matéria orgânica e macroporosidade adequada, apresenta elevada condutividade hidráulica, o que favorece a infiltração de água e reduz o escoamento superficial. 

Esse processo recarrega os aquíferos e sustenta a evapotranspiração, mecanismo fundamental para alimentar novas chuvas nas regiões a sotavento. 

Em sentido oposto, solos compactados e desprovidos de cobertura vegetal dificultam a infiltração e potencializam a erosão laminar. 

Bertoni e Lombardi Neto (2012) estimam que o Brasil perde anualmente mais de 500 milhões de toneladas de solo fértil por erosão hídrica. 

Trata-se de um processo que compromete, ao mesmo tempo, a produtividade agrícola, a qualidade dos mananciais e a estabilidade climática regional.

Emissões de metano e óxido nitroso

O CO₂ não é o único gás de efeito estufa associado ao solo. O metano (CH₄) e o óxido nitroso (N₂O) apresentam potenciais de aquecimento global (GWP100) 28 e 265 vezes superiores ao CO₂, respectivamente (IPCC, 2021), e têm no solo agrícola uma de suas principais fontes antrópicas.

O N₂O é emitido por processos microbianos de nitrificação e desnitrificação, intensificados pelo excesso de nitrogênio disponível no solo. 

Bouwman et al. (2002), em estudo publicado no Global Biogeochemical Cycles, com base em 846 medições de emissão de N₂O em campos agrícolas ao redor do mundo, demonstraram forte aumento dessas emissões à medida que crescem as taxas de aplicação de nitrogênio. 

A média global de emissão induzida por fertilizantes correspondeu a cerca de 0,9% do N aplicado, valor que pode ser substancialmente maior em solos com drenagem deficiente ou elevada umidade.

A mitigação dessas emissões depende do manejo racional da fertilização nitrogenada. 

Entre as estratégias mais relevantes estão o ajuste de doses com base em análise de solo, o fracionamento das aplicações, o uso de inibidores de nitrificação e a substituição parcial por fontes biológicas, como bactérias diazotróficas e fungos micorrízicos. 

A temperatura do solo e o microclima agrícola

A temperatura do solo é uma variável muitas vezes negligenciada no planejamento agrícola, embora produza efeitos sistêmicos sobre o microclima da lavoura. 

Bonan (2008), em estudo sobre a relação entre cobertura da terra e clima, demonstrou que alterações no uso do solo modificam de forma significativa os balanços de energia, água e carbono na interface solo-atmosfera, com impactos mensuráveis sobre o clima regional e global.

Solos expostos e com baixo teor de matéria orgânica apresentam maior amplitude térmica diária, com temperaturas superficiais que podem ultrapassar 40 °C em regiões tropicais. 

Temperaturas nessa faixa inibem enzimas extracelulares fundamentais para a ciclagem de nutrientes, o que compromete tanto a fertilidade do solo quanto sua capacidade de sequestrar carbono. 

O uso de cobertura morta, como a palhada, e de culturas de cobertura atenua essas variações térmicas, reduz a evaporação direta do solo, aumenta a eficiência do uso da água pelas culturas e contribui para um microclima mais estável e favorável ao desenvolvimento radicular.

Biota do solo: os reguladores invisíveis

Sob cada hectare de solo vivo existe uma rede de interações biológicas de extraordinária complexidade. 

Torsvik e Øvreås (2002), destacam que os avanços em métodos moleculares mostram uma diversidade microbiana do solo muito superior à anteriormente estimada. 

A maior parte desses micro-organismos ainda permanece inacessível às técnicas convencionais de cultivo, o que evidencia o quanto ainda há a compreender sobre esse universo subterrâneo.

Wagg et al. (2014), demonstraram que a perda de biodiversidade do solo e a simplificação da composição das comunidades biológicas comprometem múltiplas funções ecossistêmicas, entre elas a diversidade vegetal, a decomposição, a retenção e a ciclagem de nutrientes. 

Fungos micorrízicos arbusculares, por exemplo, contribuem para a formação de agregados estáveis por meio da produção de glomalina, proteína com papel central na estruturação do solo e na proteção do carbono orgânico contra a oxidação. 

As micorrizas arbusculares constituem fatores importantes de agregação do solo, e as hifas fúngicas exercem o efeito direto mais relevante sobre a estruturação dos agregados.

A supressão da biota do solo por pesticidas, compactação e monocultivo contínuo desorganiza esses processos e transforma o solo de regulador climático em amplificador de emissões. 

Recuperar a biodiversidade edáfica, por meio da diversificação de cultivos, do uso de bioinsumos e da redução de perturbações mecânicas, constitui, portanto, uma estratégia ao mesmo tempo climática e produtiva.

O papel do produtor rural na regulação do clima

A agropecuária brasileira ocupa cerca de 340 milhões de hectares entre pastagens, lavouras e sistemas integrados. 

Conforme o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG, 2023), o setor agropecuário e de uso da terra responde por aproximadamente 72% das emissões brutas de GEE no Brasil, mas também concentra o maior potencial nacional de mitigação e sequestro.

A adoção de práticas conservacionistas em escala global poderia transformar o solo em um verdadeiro sumidouro de carbono, com benefícios simultâneos para a produtividade, a qualidade da água e a segurança alimentar. 

No Brasil, o Plano ABC+ (2020-2030) reconhece oficialmente o solo como instrumento de política climática e estabelece metas para a expansão do plantio direto, da integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e da recuperação de pastagens degradadas.

Para o produtor rural, essa transição representa não apenas responsabilidade ambiental, mas também vantagem competitiva concreta. 

Mercados internacionais exigem rastreabilidade de carbono, créditos de carbono podem se tornar fonte adicional de receita, e sistemas conservacionistas tendem a reduzir custos com insumos no médio prazo, em razão da melhoria da fertilidade natural do solo.

Conclusão

A evidência científica acumulada nas últimas décadas é inequívoca: o solo é um dos mais importantes reguladores climáticos do planeta, e seu manejo adequado constitui uma das estratégias mais custo-efetivas de mitigação das mudanças climáticas disponíveis à humanidade. 

O sequestro de carbono no solo é uma estratégia genuína: restaura solos degradados, aumenta a produção de biomassa, melhora a qualidade da água e reduz a taxa de enriquecimento de CO₂ na atmosfera.

No contexto brasileiro, em que a agricultura ocupa posição central na economia e no território, essa responsabilidade é inescapável. Profissionais do agro precisam dominar os fundamentos da saúde do solo para tomar decisões que gerem resultados produtivos sem comprometer o equilíbrio climático das próximas gerações.

É exatamente essa formação que a ESALQ/USP, por meio do Programa SolloAgro oferece.

Acesse o catálogo de cursos do Programa SolloAgro e atualize-se para integrar a solução climática de que o agro brasileiro precisa.

Referências

BERTONI, J.; LOMBARDI NETO, F. Conservação do Solo. 8. ed. São Paulo: Ícone, 2012.

BONAN, G. B. Forests and climate change: forcings, feedbacks, and the climate benefits of forests. Science, v. 320, p. 1444-1449, 2008.

BOUWMAN, A. F.; BOUMANS, L. J. M.; BATJES, N. H. Modelling global annual N₂O and NO emissions from fertilized fields. Global Biogeochemical Cycles, v. 16, n. 4, p. 1080, 2002.

BRADY, N. C.; WEIL, R. R. The Nature and Properties of Soils. 14. ed. New Jersey: Pearson, 2013.

CERRI, C. E. P. et al. Tropical agriculture and global warming: impacts and mitigation options. Scientia Agricola, v. 64, n. 1, p. 83-99, 2007.

IPCC. Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.

LAL, R. Soil carbon sequestration impacts on global climate change and food security. Science, v. 304, p. 1623-1627, 2004a.

LAL, R. Soil carbon sequestration to mitigate climate change. Geoderma, v. 123, p. 1-22, 2004b.

LEHMANN, J.; KLEBER, M. The contentious nature of soil organic matter. Nature, v. 528, p. 60-68, 2015.

RILLIG, M. C. Arbuscular mycorrhizae, glomalin, and soil aggregation. Canadian Journal of Soil Science, v. 84, p. 355-363, 2004.

ROCKSTRÖM, J. et al. A safe operating space for humanity. Nature, v. 461, p. 472-475, 2009.

SEEG. Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa. Observatório do Clima, 2023.

TORSVIK, V.; ØVREÅS, L. Microbial diversity and function in soil: from genes to ecosystems. Current Opinion in Microbiology, v. 5, p. 240-245, 2002.

WAGG, C. et al. Soil biodiversity and soil community composition determine ecosystem multifunctionality. PNAS, v. 111, p. 5266-5270, 2014.

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia mais artigos