Manejo da resistência: 4 fundamentos da fitossanidade

Entenda os fundamentos do manejo da resistência e como preservar a eficácia de herbicidas, fungicidas, inseticidas e tecnologias Bt.

A agricultura brasileira é protagonista na produção de alimentos, mas enfrenta muitos desafios. Dentre eles está a resistência de plantas daninhas, insetos e fungos aos defensivos e às tecnologias Bt (cultivares geneticamente modificadas que expressam proteínas derivadas da bactéria Bacillus thuringiensis).

A Associação Brasileira de Ação à Resistência de Plantas Daninhas aos Herbicidas (HRAC-BR) registra dezenas de casos de resistência no país. 

O Comitê Brasileiro de Ação à Resistência a Inseticidas (IRAC-BR) documenta falhas em princípios ativos usados no controle de pragas em diversos cultivos.

O Comitê de Ação à Resistência a Fungicidas (FRAC-BR) relata redução de sensibilidade de doenças aos principais ingredientes ativos do mercado. Um exemplo é o da ferrugem asiática da soja a grupos como inibidores da Desmetilação (IDM) e Inibidores da Quinona Externa (IQe).

A resistência é um fenômeno evolutivo previsível. Sua velocidade depende das decisões agronômicas adotadas ao longo das safras.

De acordo com Prof. Pedro Christoffoleti, docente da ESALQ/USP e do Programa SolloAgro, a resistência não surge porque o produto é aplicado. Ela se estabelece porque o sistema favorece a seleção repetida dos mesmos indivíduos.

Entender o manejo da resistência exige domínio de quatro fundamentos científicos que estruturam a fitossanidade moderna.

Seleção e mutação: o princípio evolutivo

Um dos equívocos mais comuns no campo é afirmar que o defensivo “cria” resistência. 

Do ponto de vista biológico, mutações ocorrem de forma aleatória nas populações, independentemente da aplicação de produtos.

Imagem: deriva genética e evolução biológica

A frequência inicial de indivíduos menos sensíveis pode ser baixa. No entanto, quando o mesmo modo de ação é utilizado repetidamente, ocorre eliminação dos suscetíveis e sobrevivência dos raros indivíduos resistentes. 

Esses indivíduos se multiplicam e elevam gradualmente a frequência do gene associado à resistência.

O Prof. Pedro Christoffoleti explica esse processo com base na lógica darwiniana. Segundo ele, o produto atua como um filtro. Não cria o problema, apenas seleciona o que já estava presente na população.

Em fungos, o Prof. José Belasque Júnior, também docente da ESALQ/USP e do Programa SolloAgro, destaca que mutações associadas à menor sensibilidade já foram identificadas em populações de ferrugem asiática. Ele ressalta que o fungicida não induz a mutação específica. Ele seleciona indivíduos naturalmente menos sensíveis que passam a predominar.

Essa compreensão altera a abordagem prática. O manejo da resistência começa antes da aplicação. Ele depende de como o sistema produtivo é organizado.

Pressão de seleção e janela de exposição

Se amutação é aleatória, a pressão de seleção é decisiva. Quanto maior a repetição de um mesmo mecanismo de ação, maior a probabilidade de seleção acelerada de indivíduos resistentes.

Imagem: Pressão de seleção x resistência aos inseticidas. IRAC (2021)

Uso contínuo do mesmo grupo químico, ausência de rotação e aplicação frequente dentro da mesma safra ampliam a janela de exposição da população ao agente seletivo.

Na prática, a repetição sistemática de um mesmo mecanismo de ação, sem integração com outras estratégias, reduz a vida útil da tecnologia.

Além da frequência de uso, a dose aplicada influencia o processo. Subdoses favorecem indivíduos parcialmente resistentes. Doses elevadas aumentam custos e mantêm forte pressão seletiva.

A rotação de mecanismos de ação, conforme classificação da HRAC, IRAC e FRAC, reduz a intensidade da pressão de seleção. 

Quando associada ao Manejo Integrado de Pragas, Doenças e Plantas Daninhas, essa estratégia amplia a longevidade das ferramentas disponíveis.

Segundo o Prof. Belasque, a integração de fungicidas multissítio com moléculas específicas representa uma estratégia racional para reduzir a pressão seletiva e preservar grupos químicos importantes.

A janela de exposição não se limita ao período da cultura principal. Plantas daninhas, ausência de vazio sanitário e falhas no manejo de entressafra prolongam a presença do seletor no ambiente.

Custo adaptativo

Nem toda resistência é neutra do ponto de vista biológico. Em muitos casos, indivíduos resistentes apresentam custo adaptativo quando o agente seletivo não está presente.

Esse custo pode se manifestar como menor taxa de crescimento, menor competitividade ou menor capacidade reprodutiva em comparação aos suscetíveis.

Quando o sistema retira temporariamente o mecanismo de ação que estava sendo utilizado, abre-se espaço para que indivíduos suscetíveis recuperem participação na população.

Esse princípio fundamenta estratégias como alternância de grupos químicos, rotação de culturas e adoção de práticas culturais que reduzam a dependência exclusiva de um único mecanismo.

Imagem: rotação de culturas em sistemas agrícolas. Fonte: freepik

No caso de doenças, a alternância associada a fungicidas multissítio reduz a frequência de variantes menos sensíveis ao longo do tempo.

O custo adaptativo, entretanto, não deve ser interpretado como garantia de reversão automática. 

Ele representa uma oportunidade estratégica. A reversão depende da intensidade da pressão seletiva e da estrutura da população.

Refúgio e diluição gênica

O conceito de refúgio está relacionado à biotecnologia Bt, mas sua lógica é genética e evolutiva.

Ao manter uma área sem a tecnologia Bt ou sem determinado mecanismo de ação, preserva-se uma população de indivíduos suscetíveis. Esses indivíduos cruzam com eventuais resistentes, diluindo a frequência do gene associado à resistência.

Imagem:  Manejo de Refúgio no Milho Bt

A ausência de refúgio acelera a fixação do gene resistente na população. Em sistemas Bt, recomenda-se  adoção de percentuais mínimos de área de refúgio conforme normas técnicas vigentes.

O refúgio não é opcional do ponto de vista técnico. Ele é parte da estratégia de preservação da tecnologia.

Esse princípio vale também para o manejo químico. Diversidade genética e diversidade de estratégias reduzem a probabilidade de dominância rápida de genótipos resistentes.

Manejo da resistência como decisão sistêmica

Os quatro fundamentos apresentados convergem para uma conclusão: manejo da resistência não é escolha pontual de produto. É uma construção estratégica do sistema produtivo.

Rotação de modos de ação, uso de doses corretas, integração de práticas culturais, adoção de vazio sanitário, manejo de plantas voluntárias e implementação de refúgio compõem uma arquitetura técnica coerente.

Na prática, o erro mais comum é tratar resistência como problema isolado. Ela é consequência do sistema.

A fitossanidade moderna exige leitura integrada da área, da população e das ferramentas disponíveis.

Conclusão

A resistência é um fenômeno biológico inevitável em sistemas intensivos. O que pode ser controlado é a velocidade com que ela se estabelece.

Dominar os fundamentos de seleção, pressão de seleção, custo adaptativo e refúgio permite decisões mais racionais, preserva tecnologias e reduz perdas econômicas.

A agricultura brasileira dispõe de conhecimento técnico avançado, centros de pesquisa consolidados e especialistas reconhecidos internacionalmente. Transformar esse conhecimento em prática exige formação contínua e atualização técnica.

Se você deseja atualizar-se sobre fitossanidade, manejo integrado e estratégias avançadas de resistência, conheça os cursos e treinamentos da ESALQ/USP, promovidos pelo Programa SolloAgro. 

A decisão técnica de hoje define a sustentabilidade da próxima safra.

*Texto redigido pela Equipe de Conteúdo do SolloAgro. 

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