Resistência a fungicidas na soja: como proteger sua produtividade

Entenda as mutações associadas à resistência na ferrugem-asiática e na mancha-alvo, os principais erros de manejo e as diretrizes do Comitê de Ação à Resistência de Fungicidas (FRAC-BR).

A soja é a principal cultura do Brasil em área e valor de produção. Nesse cenário, doenças foliares como a ferrugem-asiática e a mancha-alvo representam risco à rentabilidade da fazenda.

A ferrugem-asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, pode provocar perdas superiores a 50% sob alta pressão. A mancha-alvo, associada a Corynespora cassiicola, amplia prejuízos em ambientes úmidos e sistemas intensivos.

Durante anos, fungicidas como triazóis, estrobilurinas e carboxamidas sustentaram níveis elevados de controle. 

Entretanto, o uso repetitivo dos mesmos mecanismos de ação impôs pressão de seleção, o que favoreceu populações com menor sensibilidade.

O resultado começou a aparecer de forma gradual:

  • Redução do teto de controle;
  • Maior número de aplicações;
  • Aumento do custo por hectare;
  • Maior risco produtivo.

Como explica o Dr. Daniel Debona, no SolloCast #76: “A pressão contínua sobre o fungo, muitas vezes em momento inadequado, aumentou a frequência de indivíduos resistentes e o controle caiu.”

Ensaios conduzidos pela Embrapa indicam que programas sem multissítios apresentam redução progressiva de eficiência ao longo das safras.

A resistência de fungicidas na soja deixou de ser um evento isolado. Tornou-se parte estrutural do sistema de produção da soja no Brasil.

Compreender seus mecanismos e ajustar a estratégia de manejo é condição para preservar produtividade e margem.

A seguir, confira o artigo completo. Boa leitura!

Como a resistência se instala: o mecanismo biológico

Na prática, a resistência é desenvolvida sob pressão de seleção sobre a população do patógeno.

Imagem: pressão de resistência. Fonte: Revista Cultivar (2023)

Em qualquer população fúngica existem variações genéticas naturais. Quando o mesmo mecanismo de ação é utilizado repetidamente, indivíduos sensíveis são eliminados, enquanto indivíduos menos afetados sobrevivem e aumentam em frequência.

Na ferrugem-asiática:

  • Mutações no gene CYP51 reduzem eficiência de triazóis;
  • Alterações no citocromo b comprometem QoIs;
  • Mudanças na enzima succinato desidrogenase reduzem sensibilidade a SDHIs.

Na mancha-alvo, reduções de sensibilidade também foram observadas para grupos 7 e 11.

Como destaca Daniel Debona, “aplicações repetidas, muitas vezes em momento inadequado e em condição muito curativa, sem disponibilidade de outros mecanismos de ação, criaram o que chamamos de resistência. Os indivíduos resistentes aumentaram em frequência e o controle caiu.”

O resultado no campo é direto:

  • Menor teto de controle;
  • Maior número de aplicações;
  • Elevação do custo por hectare;
  • Maior risco de perdas produtivas.

Sítio específico versus multissítio: por que a estratégia mudou?

Fungicidas sítio-específicos atuam sobre um único ponto metabólico do fungo. Uma única mutação pode comprometer a eficiência.

Fungicidas multissítios atuam simultaneamente em vários processos celulares e reduzem a probabilidade de resistência estável.

Imagem: locais de ação de fungicidas em células fúngicas. Fonte: Marques (2020)

Tabela 1: Comparação entre fungicidas de sítio específico e multissítio no manejo de resistência de patógenos

Os triazóis e estrobilurinas atuam em um único ponto da rota metabólica do fungo. 

De maneira didática, é como uma chave que se liga a uma fechadura. Se a fechadura muda, a chave deixa de funcionar.

Essa analogia ajuda a compreender o porquê multissítios voltaram a ser peça central do manejo.

O impacto econômico da resistência

A resistência não afeta apenas a biologia da doença. Ela afeta a rentabilidade.

Quando o teto de controle diminui:

  • O número de pulverizações aumenta;
  • O custo operacional eleva;
  • O risco de perdas superiores a 30% torna-se frequente;
  • A margem líquida por hectare diminui.

Além disso, a instabilidade técnica leva as aplicações de defensivos por precaução, o que aumenta a pressão de seleção e encurta a vida útil das moléculas disponíveis.

Preservar eficiência é preservar sacas.

Erros que aceleram a resistência

Algumas decisões intensificam o problema:

  1. Repetição sucessiva do mesmo grupo FRAC;
  2. Uso isolado de fungicidas sítio-específicos;
  3. Aplicações tardias sob alta carga de inóculo;
  4. Subdosagem;
  5. Desconsideração do histórico regional de sensibilidade.

Estratégias técnicas recomendadas

O Comitê de Ação à Resistência a Fungicidas no Brasil (FRAC-BR) recomenda:

  • Alternância estruturada de mecanismos de ação;
  • Limitação de aplicações de grupos de maior risco;
  • Inclusão obrigatória de multissítios;
  • Integração com manejo cultural.

Entre as estratégias complementares:

  • Eliminação de plantas voluntárias;
  • Cumprimento do vazio sanitário;
  • Ajuste de população para melhorar aeração;
  • Monitoramento regional de sensibilidade.

Conclusão

A resistência a fungicidas na soja resulta da interação entre variabilidade genética do patógeno e pressão de seleção imposta pelo manejo químico.

Alternância de mecanismos, inclusão de multissítios, posicionamento preventivo e integração cultural formam a base de um programa robusto.

No agro moderno, produtividade sustentável depende de estratégia fundamentada em ciência aplicada.

*Texto redigido pela Equipe de Conteúdo do SolloAgro. 

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