Pesquisadores da UFLA lançam novo método de recomendação de calagem

Publicado em: 14/11/2025.

Nova proposta da UFLA desafia o modelo tradicional de calagem e promete ganhos expressivos em produtividade.

Com o avanço dos sistemas de produção e o aumento do potencial produtivo das cultivares, alguns pesquisadores destacam a necessidade de atualizar os critérios utilizados para calcular a dose ideal de calcário. 

Nesse contexto, pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA) desenvolveram uma nova metodologia de estimativa da necessidade de calagem.

O trabalho coordenado pelo Prof. Silvino Moreira e colaboradores, apresenta um modelo baseado em atributos químicos do solo e na composição do corretivo, com ênfase na saturação de cálcio (Ca²⁺) e magnésio (Mg²⁺) como indicadores para o cálculo da dose de calcário.

Base experimental e abrangência do estudo

A pesquisa foi conduzida em sete locais de Minas Gerais.

Imagem: localização geográfica dos municípios de Minas Gerais onde a pesquisa foi realizada. Fonte: Moreira et al. (2026).

Em cada local foram aplicadas doses de calcário, chegando a 20 toneladas por hectare, e acompanhados os efeitos ao longo de quatro ciclos agrícolas consecutivos.

Imagem: doses de calcário na camada 20-40: parcela controle (A), com 6 t/ha (B) e com 12 t/ha (C e D). Fonte: Cibele Aguiar.

Os experimentos contemplaram solos predominantemente argilosos e diferentes culturas, incluindo leguminosas e gramíneas, o que permitiu avaliar a resposta da calagem em contextos variados. 

A correção do solo foi realizada até 40 cm de profundidade, e as análises químicas foram conduzidas em duas camadas: 0-20 cm e 20-40 cm.

De acordo com os autores, o conjunto de dados obtido permitiu ajustar curvas de resposta de produtividade e determinar os teores de Ca²⁺ e Mg²⁺ associados a 95% da produtividade máxima relativa

Segundo eles, essa abordagem busca representar condições mais próximas do manejo atual das culturas de alta produtividade.

Comparação com o método tradicional

O método tradicional de recomendação de calagem utilizado no Brasil é o proposto por Raij et al. (1996), descrito no Boletim 100 do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). 

Essa metodologia se baseia na saturação por bases total (V%), com valores de referência em torno de 70%, em que considera somente a camada de 0–20 cm do solo.

No estudo da UFLA, foram observados valores críticos de Ca²⁺ e Mg²⁺ superiores aos recomendados pelos boletins estaduais. As produtividades máximas estimadas foram alcançadas com:

  • 4,1 cmolc/dm³ de Ca²⁺ e 2,0 cmolc/dm³ de Mg²⁺ na camada 0-20 cm;
  • 1,9 cmolc/dm³ de Ca²⁺ e 1,0 cmolc/dm³ de Mg²⁺ na camada 20-40 cm.

Esses valores correspondem a uma saturação aproximada de 60% de Ca e 30% de Mg, o que totaliza cerca de 90 a 95% de saturação por bases da Capacidade de Troca Catiônica (CTC)

O estudo também destaca que as camadas subsuperficiais contribuem para o desenvolvimento radicular e, portanto, devem ser consideradas nas recomendações de calagem.

Olhar de especialista

O Prof. Paulo Sérgio Pavinato, docente ESALQ/USP e do Programa SolloAgro, analisou o trabalho e comentou sobre a consistência dos dados e o potencial de aplicação prática dos resultados.

Segundo ele, “os dados são consistentes e mostram que as produtividades máximas, correspondentes a 95% da resposta relativa, ocorreram em solos com teores de cálcio e magnésio, praticamente o dobro dos valores atualmente recomendados.”

Ainda de acordo com o professor, “em algumas situações, as doses calculadas pelo novo método podem ser até duas vezes superiores às recomendadas pelas fórmulas convencionais”.

O professor enfatizou a importância de considerar a correção em maior profundidade: “a pesquisa reforça que não basta corrigir apenas a camada superficial. É fundamental ter ao menos 2 cmolc/dm³ de Ca e 1 cmolc/dm³ de Mg na camada de 20-40 cm para garantir bom desenvolvimento radicular e estabilidade produtiva, especialmente em culturas como soja e milho.”

O docente observou ainda que os resultados sugerem a necessidade de atualização dos boletins de recomendação: “os dados estão bem embasados e representam um avanço importante para aperfeiçoar os boletins de recomendação de calagem, que precisam ser ajustados à realidade das cultivares mais produtivas. O nível de saturação por bases de 70% não é suficiente para as produtividades que buscamos atualmente.”

Síntese dos resultados

As produtividades máximas das culturas avaliadas foram associadas a níveis mais elevados de saturação por bases e à correção em maior profundidade do solo.

Imagem: dose de 3 t/ha de calcário (primeira foto de milho) e 12 t/ha de calcário (segunda foto de milho). Fonte: Cibele Aguiar.

O método propõe uma abordagem que integra a composição química do calcário, a CTC e os valores críticos de Ca e Mg para o cálculo da dose de aplicação.

Conforme comentou o Prof. Pavinato “a metodologia apresenta potencial para subsidiar revisões futuras nas recomendações oficiais de calagem, principalmente em solos de textura média argilosa e sob sistemas de produção intensivos”.

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*Texto redigido pela Equipe de Conteúdo do SolloAgro.

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