As primeiras chuvas costumam criar sensação de urgência. A superfície do solo muda de aparência, as temperaturas começam a subir e o calendário da próxima safra pressiona a tomada de decisão.

(Imagem: Formação de chuvas no cerrado | Embrapa)

Mas chuva isolada não garante água suficiente para germinação, emergência e estabelecimento inicial da cultura.

O El Niño já está configurado e deve permanecer ativo nos próximos meses. As projeções indicam maior risco de chuva abaixo da média em partes do centro-norte do país e possibilidade de precipitações acima da média no Sul. A intensidade e a distribuição dos impactos, porém, variam entre regiões e períodos.

Análise técnica

De acordo com o Prof. Fábio Marin, docente da ESALQ/USP e do Programa SolloAgro, no Norte, no Nordeste e nas porções mais ao norte do Mato Grosso e Goiás, o El Niño forte pode reduzir as chuvas e afetar a safra de verão 2026/27.

Isso não representa, necessariamente, um cenário de desastre. O planejamento dessas regiões, no entanto, deve priorizar a resiliência do sistema produtivo, e não apenas a busca por altas produtividades.

A lavoura precisa dispor de condições para enfrentar possíveis veranicos e ondas de calor. Entre as estratégias estão a semeadura antecipada, desde que exista umidade adequada no solo, a ampliação da quantidade de palhada, a escolha de cultivares com ciclo compatível com o risco regional e o uso de tecnologias que contribuam para a tolerância ao déficit hídrico.

No Sul e em parte do Sudeste, o cenário pode apresentar chuvas acima da média. Essa condição pode favorecer alguns cultivos, mas também eleva o risco de erosão, alagamento e atraso de operações agrícolas.

Fábio R. Marin
Professor Associado da ESALQ/USP
Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Sistemas Agrícolas

Antes de liberar a semeadura, verifique:

• A umidade alcançou a profundidade de deposição da semente?
• O perfil do solo possui água suficiente para sustentar a emergência?
• Existe previsão de novas chuvas nos próximos dias?
• A palhada cobre o solo e reduz a perda de água?
• A cultivar está posicionada para a época e para o risco climático da região?
• O solo permite a entrada das máquinas sem risco elevado de compactação?

A decisão não deve partir apenas do volume registrado no pluviômetro. Ela precisa considerar o que existe no perfil do solo e o que pode ocorrer depois da germinação.