Em setembro, a Embrapa publicou uma matéria sobre o avanço da edição gênica de microrganismos para uso na agricultura, com destaque para bactérias relacionadas à Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) e à produção de bioinsumos.
Segundo a instituição, mais de 50% das submissões de edição gênica analisadas atualmente pela CTNBio estão relacionadas a microrganismos.
A tecnologia avança. Mas qualquer microrganismo aplicado chega a um ambiente que já possui raízes, matéria orgânica, nutrientes e uma comunidade microbiana própria.
É aí que o manejo começa a fazer diferença.
O solo já tem uma comunidade trabalhando nele
Para o Prof. Fernando Dini Andreote, docente da ESALQ/USP e do Programa SolloAgro, os processos biológicos precisam entrar na discussão sobre fertilidade do solo e nutrição de plantas.
Os microrganismos participam da transformação e da ciclagem de nutrientes. Em algumas situações, sua atividade permite que a planta aproveite recursos do solo com maior eficiência.
Isso, porém, não significa substituir automaticamente a adubação.
Na maior parte dos casos, a biologia complementa o manejo nutricional, em vez de tornar a planta independente do fornecimento de nutrientes.
O que acontece acima do solo também interfere no que está abaixo
A comunidade microbiana responde à forma como a lavoura é conduzida.
Sistemas com maior diversidade de plantas podem favorecer também a diversidade e a atividade biológica do solo. Plantas de cobertura, manutenção de resíduos e menor perturbação criam condições importantes para esses processos.
O plantio direto ajuda a visualizar essa relação.
Além de manter o solo coberto, o sistema fornece resíduos vegetais que representam a entrada de carbono e substrato para os organismos do solo.
A diversidade colocada sobre o solo pode influenciar a vida que existe dentro dele.
Raízes e microrganismos fazem parte do mesmo sistema
A planta também participa ativamente dessa relação.
O carbono produzido pela fotossíntese alimenta muitas dessas interações. Do outro lado, microrganismos participam da dinâmica de nutrientes como nitrogênio (N), fósforo (P), enxofre (S) e zinco (Zn).
Um exemplo são os fungos micorrízicos.
Eles se associam às raízes e podem ampliar a área explorada pela planta no solo, o que favorece o acesso à água e a alguns nutrientes.
Por isso, falar de microbiologia do solo também significa falar de raiz, água, nutrição e manejo.
Como saber se a vida do solo está melhorando?
Hoje já existem ferramentas capazes de avaliar componentes da atividade biológica do solo.
O desafio está na interpretação. Para vários indicadores, ainda não existem valores de referência consolidados para todas as condições de solo do Brasil. Um número isolado, portanto, nem sempre permite dizer se a situação é boa ou ruim.
Uma alternativa prática é acompanhar áreas com manejos diferentes dentro da própria propriedade.
Um talhão com rotação apresenta resposta diferente daquele com menor diversidade? A introdução de plantas de cobertura alterou os indicadores biológicos? O comportamento mudou ao longo das safras?
Comparar o manejo ao longo do tempo pode dizer mais do que olhar apenas para um número.
Análise técnica
O biológico precisa encontrar condições para funcionar
Um produto biológico não corrige sozinho todas as limitações de uma área.
O Prof. Andreote cita um exemplo: se o solo apresenta acidez muito elevada, excesso de alumínio ou outra condição que impede o desenvolvimento adequado das raízes, aplicar um microrganismo não substitui a correção necessária.
Primeiro, o ambiente precisa permitir que raiz, planta e comunidade microbiana funcionem.
Depois, a biologia pode contribuir para tornar o sistema mais eficiente.
“A parte biológica vem para aumentar a eficiência de uso de nutrientes.”
Na prática, isso muda a lógica da escolha.
Antes de perguntar apenas “qual biológico usar?”, é preciso entender qual limitação existe na área, qual função se espera daquele microrganismo e se o solo oferece condições para que ele cumpra esse papel.
A vida do solo começa antes do produto
Os produtos microbiológicos ampliam as possibilidades de manejo, mas são apenas uma parte de um sistema muito maior.
O resultado também passa pela diversidade de plantas, pelas raízes, pela matéria orgânica, pelas condições químicas e pelo histórico da área.
O microrganismo pode ser uma ferramenta importante. O manejo ajuda a definir se o solo oferece condições para que essa ferramenta cumpra sua função.
Quer aprofundar esse tema?
No SolloCast #81, o Prof. Fernando Dini Andreote explica como a microbiologia se conecta à fertilidade do solo, à nutrição das plantas, à rotação de culturas e ao uso de tecnologias biológicas.
A conversa também aborda micorrizas, análises biológicas do solo e os limites do que podemos esperar dos microrganismos no campo.
