Entenda por que o dólar influencia o preço dos fertilizantes no Brasil, como a dependência de importações amplia o risco e por que a relação de troca é decisiva para o custo da safra.
Quando o dólar sobe, a primeira leitura no campo costuma ser feita pelo lado da receita. Soja, milho, café, algodão, açúcar e outras commodities têm preços ligados ao comércio internacional, e a desvalorização do real pode elevar a receita convertida em moeda nacional. O mesmo câmbio, porém, também atua sobre o lado dos custos. Poucos insumos mostram essa transmissão com tanta clareza quanto os fertilizantes.
O motivo é estrutural. Em abril de 2026, o Ministério da Agricultura e Pecuária informou que o Brasil importava cerca de 85% dos fertilizantes que utilizava. A exposição externa alcança os três macronutrientes primários, embora com intensidades distintas entre nitrogênio, fósforo e potássio. O País ocupa a quarta posição no consumo mundial de fertilizantes e soja, milho e cana-de-açúcar respondem por mais de 73% do consumo nacional, segundo o Plano Nacional de Fertilizantes.
Os dados de comércio exterior mostram a dimensão financeira dessa dependência. Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil importou 28,45 milhões de toneladas de adubos ou fertilizantes químicos, com desembolso de US$ 11,17 bilhões. O volume ficou 15,7% abaixo do mesmo período de 2025, mas o preço médio subiu 14,6%, de US$ 342,7 para US$ 392,5 por tonelada. Isso significa que o custo externo aumentou por unidade mesmo em um ano de menor volume importado.
Por isso, a frase “o dólar encareceu o adubo” está correta, mas incompleta. O preço pago pelo produtor resulta da combinação entre cotação internacional, taxa de câmbio, energia, fretes, seguros, custos portuários, logística interna, condições comerciais e poder de compra da própria commodity agrícola. O câmbio é um dos elos mais visíveis dessa cadeia, não o único.

Figura 1. Volume importado e preço médio de adubos ou fertilizantes químicos, janeiro a setembro de 2020 a 2026.
Fonte: MDIC/Comex Stat
Por que a dependência externa transforma o câmbio em risco de custo?
Uma cadeia dependente de importações converte alterações no mercado internacional em variáveis de custo doméstico. Fertilizantes comprados no exterior são negociados em dólar e chegam ao Brasil após uma sequência de despesas que também pode responder a fatores internacionais: frete marítimo, seguro, armazenagem, custo financeiro e disponibilidade logística.
A exposição não é apenas cambial. Ela é também geográfica. O Banco Central registrou que, em 2025, a Rússia respondeu por 25,9% do valor importado de fertilizantes pelo Brasil, a China por 18,8% e o Oriente Médio por 14,5%. A região do Oriente Médio tem peso adicional nos nitrogenados porque concentra cerca de 34% do comércio mundial de ureia. No Brasil, aproximadamente um terço das importações de fertilizantes em 2025 correspondeu a nitrogenados; 22% desse grupo teve origem no Oriente Médio.
Esse desenho cria duas formas de exposição. A primeira é a variação do real frente ao dólar. A segunda é a alteração do próprio preço internacional do fertilizante. Quando ambas caminham na mesma direção, o impacto em reais tende a se intensificar. Quando caminham em sentidos opostos, uma pode compensar parcialmente a outra.

Figura 2. Participação de grandes origens no valor das importações brasileiras de fertilizantes em 2025.
Fonte: Banco Central do Brasil, Relatório de Política Monetária, jun. 2026
2. Como o dólar entra no preço do fertilizante?

Figura 3. Caminho simplificado de formação do custo do fertilizante importado.
Em termos simplificados, o custo de entrada de um fertilizante importado começa no preço internacional em dólares por tonelada. Esse valor é convertido em reais pela taxa de câmbio e recebe os componentes logísticos e comerciais até a entrega ao comprador. A transmissão não é instantânea nem proporcional em todos os momentos porque estoques, contratos anteriores, proteção cambial, condições de pagamento e concorrência entre fornecedores amortecem ou retardam parte do movimento.
Um exemplo ajuda a visualizar o mecanismo. Se um produto custa US$ 400 por tonelada, a conversão a R$ 5,00 por dólar equivale a R$ 2.000 por tonelada antes dos demais custos. A R$ 5,50 por dólar, o mesmo produto passa para R$ 2.200 por tonelada. O preço internacional permaneceu idêntico, mas a conversão cambial acrescentou R$ 200 por tonelada.
De acordo com Nicolella, Dragone e Bacha (2005), o preço do fertilizante em moeda nacional é influenciado pela cotação internacional, pela taxa de câmbio e pela tributação. No período de 1970 a 2002, os autores estimaram elasticidade-preço de longo prazo da demanda de fertilizantes de -0,655, resultado que caracteriza uma demanda relativamente inelástica: aumentos de preço reduzem o consumo, mas em proporção menor que a variação do próprio preço.
Outro estudo, publicado na Revista de Política Agrícola, analisou o vínculo entre câmbio e preços do agronegócio. Matos, Ninaut e Caiado concluíram que, durante parte da série histórica, as oscilações dos preços reais da soja e dos fertilizantes foram explicadas de forma coerente pelas alterações cambiais. A partir de 2007, a relação perdeu alinhamento, o que os autores associaram ao aquecimento da demanda mundial por produtos agrícolas e à expansão dos biocombustíveis. A conclusão é importante: câmbio explica parte do preço, mas choques globais de oferta e demanda também deslocam o mercado.
Nitrogênio, fósforo e potássio não respondem ao mesmo conjunto de riscos
Falar em “preço dos fertilizantes” como se todos os produtos respondessem ao mesmo mercado simplifica demais a cadeia. Nitrogenados, fosfatados e potássicos possuem estruturas produtivas distintas, origens geográficas próprias e sensibilidades diferentes a energia e logística.
Nos nitrogenados, o gás natural possui papel central na síntese de amônia e, por consequência, na fabricação de uréia. Por isso, choques de energia e restrições em regiões exportadoras podem alterar o preço mundial mesmo sem mudança relevante na taxa de câmbio brasileira. Em maio de 2026, o Banco Central registrou alta de 50% no preço de referência da uréia granular entregue no Brasil em relação à média do primeiro bimestre do ano.
Nos fosfatados, o preço combina mineração de rocha fosfática, transformação industrial, disponibilidade de enxofre e amônia e custos logísticos. No mesmo episódio de 2026, o preço de referência do MAP subiu 29,7%. O potássio, extraído principalmente de depósitos minerais, apresentou aumento menor, de 9,7%, mas o Brasil permanece muito exposto ao mercado externo desse nutriente.
A literatura econométrica mostra que essa diferença importa. Ogino et al. (2021), analisaram nitrogenados, fosfatados e potássicos separadamente para o Centro-Oeste. Após um choque de 10% nos preços, as respostas acumuladas do consumo no quinto período foram de -1,40% para N, -0,95% para P₂O₅ e -2,11% para K₂O. O potássio apresentou a maior redução, resultado atribuído pelos autores à elevada dependência externa brasileira.
O caso de 2026: quando geopolítica, energia e câmbio se encontram
O mercado de 2026 oferece um exemplo claro de por que a análise não pode parar no dólar. O conflito no Oriente Médio elevou a percepção de risco sobre energia, fertilizantes e transporte marítimo. O Banco Central observou que a região concentra cerca de 34% do comércio global de ureia e relacionou o comportamento dos nitrogenados ao papel do gás natural como insumo intermediário.
A pressão chegou ao Brasil antes mesmo do plantio da safra 2026/2027. Levantamento da CNA apontou alta de 40% no preço médio da ureia ao produtor durante o período analisado do conflito e aumento de 20% no MAP, enquanto as cotações da soja avançaram apenas 0,9% e as do milho 0,1%. O problema, portanto, não estava apenas no valor nominal do insumo, mas na perda de poder de compra do produtor.
O comércio exterior também mudou. Entre janeiro e setembro de 2026, o preço médio dos adubos ou fertilizantes químicos importados atingiu US$ 392,5/t, 14,6% acima do mesmo período de 2025. O volume recuou 15,7%. Essa combinação mostra que o País pode importar menos e, ainda assim, enfrentar maior pressão por tonelada comprada.
A conclusão operacional é direta: o preço na fazenda depende de três movimentos que podem ocorrer ao mesmo tempo. O primeiro é o câmbio. O segundo é o preço internacional da fonte. O terceiro é o custo de colocação do produto no Brasil e na região produtora.
Para o produtor, a relação de troca é mais útil que olhar apenas o dólar
A taxa de câmbio informa quanto custa converter um preço externo para reais, mas não responde à pergunta que interessa à margem da fazenda: quantas unidades da produção são necessárias para pagar o insumo? Essa comparação é expressa pela relação de troca.
Em março de 2026, o Projeto Campo Futuro, do Sistema CNA/Senar em parceria com o Cepea, calculou que um produtor de soja em Mato Grosso precisava de 44 sacas para adquirir uma tonelada de MAP. Em março de 2020, eram necessárias 24 sacas. A piora foi de 83% e o indicador alcançou o maior nível da série apresentada pelo levantamento.
Esse tipo de indicador evita uma interpretação enganosa. Um fertilizante pode cair de preço em reais e continuar caro em termos de soja se a commodity cair ainda mais. Da mesma forma, uma alta nominal do adubo pode ser absorvida quando a receita do produto agrícola aumenta em proporção superior. O custo econômico da adubação depende do que a propriedade precisa entregar para financiá-la.

Figura 4. Relação de troca entre soja e MAP em Mato Grosso: 24 sacas/t em março de 2020 e 44 sacas/t em março de 2026.
Fonte: Campo Futuro CNA
Dólar alto é sempre ruim para o produtor?
Não. A mesma desvalorização do real que pressiona fertilizantes importados pode elevar a receita em reais de produtos conectados ao mercado internacional. É por isso que o efeito líquido do câmbio varia entre culturas, regiões, momentos de compra e estratégias de comercialização.
O Prof. Geraldo Barros, do Cepea, descreveu essa transmissão por dois canais: elevação do custo de insumos importados e aumento da renda bruta das exportações convertida em reais. A observação não significa que todo produtor se beneficie de um dólar mais alto. O resultado depende da participação dos insumos dolarizados no custo, da parcela da produção exposta à paridade de exportação e do momento em que compras e vendas foram fixadas.
Uma lavoura de soja pode receber parte da compensação por meio da valorização do grão em reais. Já um sistema com receita mais ligada ao mercado doméstico pode absorver o encarecimento dos insumos sem aumento equivalente da receita. Por isso, o indicador mais útil não é apenas R/US, mas a relação entre preço de venda esperado, produtividade e custo do pacote tecnológico.
O que a ciência diz sobre a dependência brasileira
A dependência externa não é apenas uma preocupação conjuntural. Oliveira, Dorner e Almeida (2023), analisaram a dependência do agronegócio brasileiro de fertilizantes importados após o choque provocado pela guerra na Ucrânia. Os autores encontraram associação entre os componentes importados de NPK e a produção e produtividade de soja e milho e destacaram a ureia como um ponto sensível da cadeia.
A análise converge com a discussão estrutural do Plano Nacional de Fertilizantes. O Brasil é responsável por cerca de 8% do consumo global de fertilizantes, e a oferta doméstica não acompanha a escala da demanda. O problema estratégico não é apenas o volume importado, mas a concentração em poucos fornecedores e a vulnerabilidade a interrupções de energia, transporte e comércio.
Esse quadro também explica por que a substituição de fontes ou o desenvolvimento de novas tecnologias precisa ser avaliado com critério agronômico. Uma fonte mais barata por tonelada não é necessariamente mais barata por unidade de nutriente aproveitada pela cultura. Concentração, solubilidade, eficiência, perdas, logística e resposta do solo alteram o custo efetivo por hectare.
Fertilizante caro não autoriza corte cego de dose
Quando o insumo sobe, uma reação intuitiva é reduzir a dose. Esse ajuste pode ser economicamente racional em determinadas situações, mas não deve partir de uma redução linear e indiscriminada. A decisão precisa considerar análise de solo, expectativa realista de produtividade, exportação de nutrientes pela colheita, histórico de adubação, fertilidade construída e eficiência da fonte escolhida.
Rafael Otto, professor do Departamento de Ciência do Solo da ESALQ/USP, resume esse princípio ao afirmar que avaliar a fertilidade do solo permite ao produtor manejar o solo de forma mais eficiente e fornecer os nutrientes requeridos pelas plantas. A frase ganha peso em períodos de alta de fertilizantes: quanto maior o preço da unidade de nutriente, maior o custo de uma aplicação sem diagnóstico.
O mesmo vale para a troca de fontes. A CNA registrou em 2026 mudança no perfil de importações, com maior procura por fontes menos concentradas em alguns segmentos. Essa substituição pode reduzir o preço de aquisição por tonelada, mas exige cálculo por unidade de nutriente e revisão da logística de aplicação. O produto mais barato no porto pode não ser o mais econômico no talhão.
Uma gestão técnica precisa separar duas decisões. A primeira é agronômica: quanto N, P, K e demais nutrientes o sistema requer? A segunda é comercial: quando e em quais condições comprar? Misturar essas perguntas aumenta o risco de economizar na compra e perder na produtividade.
O que o produtor pode controlar em um mercado que não controla?
O produtor não controla o dólar, a cotação internacional do MAP ou a oferta global de gás natural. Ele pode, porém, reduzir a exposição operacional a esses fatores. O primeiro passo é monitorar relação de troca, e não apenas preço absoluto. O segundo é evitar concentrar toda a compra em uma única janela quando o planejamento financeiro e agronômico permite fracionamento. O terceiro é comparar fontes por custo de nutriente e eficiência, não somente por preço da tonelada.
Também cabe separar risco de preço de risco de abastecimento. Em um ambiente de elevada dependência externa, esperar indefinidamente por uma queda de preço pode reduzir o custo unitário se o mercado ceder, mas também pode aumentar risco de entrega, frete e disponibilidade regional. A decisão precisa combinar necessidade técnica, caixa, cronograma da safra e tolerância ao risco.
No nível da propriedade, eficiência de uso continua como a proteção mais duradoura. Análise de solo, correção adequada, posicionamento do fertilizante, época de aplicação, manejo de palhada, rotação, matéria orgânica e sistema radicular interferem na quantidade de nutriente efetivamente convertida em produção. Quando o insumo custa mais, desperdício agronômico custa mais também.
Aumentar a produção nacional elimina o risco cambial?
Não por completo. O Plano Nacional de Fertilizantes busca reduzir a vulnerabilidade externa e estabelece horizonte para que a produção nacional atenda entre 45% e 50% da demanda interna até 2050. As metas incluem expansão da capacidade de nitrogenados, fósforo e potássio e desenvolvimento de fontes alternativas e tecnologias de maior eficiência.
Maior produção doméstica pode reduzir risco de abastecimento, concentração de fornecedores e parte do custo logístico internacional. Ainda assim, energia, equipamentos, matérias-primas e paridade com o produto importado mantêm alguma conexão com preços globais e câmbio. Produção nacional reduz exposição; não transforma o fertilizante em um mercado isolado do mundo.
O ganho estratégico está na diversificação. Quanto maior o número de fontes, fornecedores, rotas e tecnologias disponíveis, menor a dependência de um único choque. Para uma agricultura que consome cerca de 8% dos fertilizantes do mundo, essa diversificação é uma questão de competitividade e segurança produtiva.
Conclusão
O câmbio pesa no custo da safra porque a agricultura brasileira opera com forte dependência de fertilizantes importados. Quando o real se desvaloriza, o preço internacional convertido em reais aumenta; quando esse movimento coincide com alta da uréia, do MAP ou do KCl no mercado mundial, a pressão se torna maior. Frete, energia, seguro, porto e logística completam a formação do custo.
Por isso, o dólar não deve ser analisado sozinho. Em 2026, o preço médio de importação dos fertilizantes químicos subiu 14,6% em dólares entre janeiro e setembro, enquanto a relação de troca da soja com o MAP atingiu patamar muito pior que o observado em 2020. O produtor sentiu simultaneamente preço internacional, geopolítica e perda de poder de compra.
A pergunta mais útil, portanto, não é apenas “quanto está o dólar?”, mas “quantas sacas da produção serão necessárias para financiar os nutrientes da próxima safra e qual retorno agronômico essa adubação pode gerar?”. Câmbio define parte do risco. Relação de troca, eficiência de uso e planejamento determinam como esse risco chega à margem da propriedade.
Referências
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Política Monetária, junho de 2026.
BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Plano Nacional de Fertilizantes 2050.
BRASIL. MDIC. Resultados do Comércio Exterior Brasileiro: Dados Consolidados.
CNA. Fertilizantes pressionam custo da safra 2026/2027. 21 maio 2026.
BARROS, G. S. A. C. Agronegócio e o dólar. Cepea/ESALQ-USP.
EMBRAPA. Nutrientes para agricultura: condicionantes e tendências do uso de fertilizantes no Brasil.

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