Coinoculação em soja: fundamentos, avanços e importância para altas produtividades

Publicado em: 21/11/2025.

Como a coinoculação de Bradyrhizobium e Azospirillum se tornou indispensável para a produção de soja no Brasil?


A soja é um dos pilares da agricultura brasileira. Na safra 2024/25 o país plantou 47 milhões de hectares e mantém a produtividade média de 3.622 kg/ha, o que o consolida líder mundial em produção e exportação. 

Para assegurar rentabilidade e reduzir a dependência de fertilizantes nitrogenados, o Brasil adotou, ao longo das últimas décadas, um conjunto de tecnologias sustentáveis baseadas na microbiologia do solo. 

Entre elas, destaca-se a coinoculação, prática que integra Bradyrhizobium (bactéria fixadora de nitrogênio) e Azospirillum (bactéria promotora de crescimento radicular).

Essa tecnologia, que evoluiu desde 2010, tornou-se importante para sistemas produtivos modernos. Mais de 70 milhões de doses de Bradyrhizobium (100 mL por 50 kg de sementes) e cerca de 10 milhões de doses de Azospirillum são comercializadas por safra no país.

Por que a coinoculação ganhou importância?

A planta de soja necessita, em média, de 68,5 kg de nitrogênio (N) para produzir 1.000 kg de grãos

Em lavouras de altas produtividades, acima de 6.000 kg/ha, o cultivo chega a demandar 411 kg/ha de N

Suprir tudo isso apenas com fertilizantes seria caro e traria grandes impactos ambientais, por isso a cultura depende de estratégias mais eficientes, como a fixação biológica de nitrogênio.

A coinoculação surge como solução porque:

  • O Bradyrhizobium supre nitrogênio para a soja por meio da fixação biológica (FBN), processo que responde por cerca de 84% do nitrogênio que a planta absorve.
  • O Azospirillum estimula o crescimento das raízes, favorece a formação de pelos absorventes e melhora a captação de água e nutrientes pela planta.
  • A ação conjunta desses microrganismos torna o sistema mais eficiente, ampliando o número, o tamanho e a atividade dos nódulos na soja.

Imagem: coinoculação Bradyrhizobium + Azospirillum. Foto: Embrapa soja, 2017. 

Conceito e mecanismos da coinoculação

A coinoculação consiste na aplicação conjunta de:

  • Bradyrhizobium (japonicum, diazoefficiens ou elkanii): responsáveis pela formação dos nódulos e fixação de nitrogênio atmosférico (N₂).
  • Azospirillum brasilense (Ab-V5 e Ab-V6): rizobactérias promotoras de crescimento (PGPR).

Ação combinada dos microrganismos

FBN: O Bradyrhizobium estabelece uma relação simbiótica com a planta e forma nódulos ativos, que transformam o N₂ do ar em nitrogênio assimilável pela soja.
Promoção de crescimento: Azospirillum produz fitohormônios como AIA (auxina), que estimula o desenvolvimento do sistema radicular.

Sinergia

  • Mais raízes: mais locais para nodulação;
  • Mais nódulos: maior suprimento de nitrogênio;
  • Maior aporte de N: aumento de proteína e produtividade.

Imagem: ganhos de produtividade com a coinoculação. Fonte: Wanderson Alves de Góis, Emater-PR, 2016. 

Fatores edafoclimáticos que influenciam a eficiência

A resposta da coinoculação não depende apenas da aplicação correta; fatores ambientais determinam o sucesso da tecnologia.

Temperatura do solo

  • Ideal: 25 a 30°C.
  • Temperaturas acima de 39°C prejudicam a sobrevivência bacteriana e a atividade das nitrogenases.
  • Temperaturas muito baixas reduzem a nodulação.

Imagem: sistema radicular das mudas de soja 8 dias após a semeadura sem inoculação, com inoculação (Bradyrhizobium sp.) e coinoculação (Bradyrhizobium sp. + Azospirillum sp.) em solo com temperaturas de 20, 25 e 30ºC. Fonte: Traduzido de Martin et al., 2023. 

Umidade do solo

  • Déficit hídrico após a semeadura pode matar bactérias por desidratação.
  • Excesso de água em solos saturados reduz oxigênio e inibe a atividade dos nódulos.


Imagem: semeadura com solo seco. Fonte: Bernardo-Pinto et al., 2023.

Cuidados no tratamento de sementes

Não basta comprar o produto; é preciso utilizá-lo de forma correta.

  • Utilizar protetores (polímeros, encapsulantes).
  • Reduzir o tempo entre inoculação e semeadura.
  • Priorizar inoculação no sulco de plantio, com maior proteção contra temperatura e desidratação.

E quais são os métodos de aplicação?

  • Nas sementes: mais comum, porém mais sensível a pesticidas.
  • No sulco de semeadura: mais eficiente e seguro.
  • Via foliar (Azospirillum): complemento interessante, mas não substitui a coinoculação nas sementes ou no sulco.

Coinoculação e altas produtividades

Para atingir produtividades acima de 6.000 kg/ha, a planta precisa de:

  • Sistema radicular profundo e volumoso;
  • Nodulação abundante e ativa até R5;
  • Suprimento contínuo de nitrogênio ao longo do ciclo.

A coinoculação contribui para esses três pilares.

Sustentabilidade e redução de custos

Os benefícios econômicos e ambientais da coinoculação são:

Economia

De acordo com Martin et al. (2023), o custo médio da coinoculação é inferior a US$ 3,61 por hectare, e fornece N para todo o ciclo da soja. 

Para suprir apenas 20 kg de N via ureia na semeadura da soja, o custo é superior a US$ 40 por hectare.

Além disso, o N fixado não está sujeito a volatilização ou lixiviação.

Sustentabilidade

  • Redução de emissão de gases de efeito estufa.
  • Menor dependência de fertilizantes nitrogenados.
  • Reciclagem natural de nutrientes, o que favorece a saúde do solo.
  • Estímulo à diversidade microbiana e ao equilíbrio da rizosfera.

Conclusões

A coinoculação com Bradyrhizobium + Azospirillum consolidou-se como uma das tecnologias mais importantes para a produtividade e sustentabilidade da soja no Brasil. 

Ela potencializa a FBN, promove o desenvolvimento radicular e prepara a planta para condições adversas. 

O uso correto da tecnologia, aliado a solo corrigido, sementes de qualidade e manejo adequado, permite ganhos consistentes, principalmente em sistemas de média e alta produtividade.

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*Texto redigido pela Equipe de Conteúdo do SolloAgro. 

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